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Cadê o Empoderamento na Bienal?

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No post passado eu prometi abrir o coração para os livros infanto-juvenis-meio-industriais e ler pelo menos um pra poder confirmar minhas hipóteses de que são adaptações da princesas frágeis da Disney, mas agora no High School. Acabei lendo dois livros e descobri que deixar a arrogância de lado só faz bem.

Minha jornada começa no momento de escolher qual deles eu leria. Os primeiros a serem descartados foram Kevin Hearne por se tratar de um fandom de Star Wars que vai muito além de meus interesses e os livros de youtuber porque esses merecem um post especial.

Um ótimo exemplo de como representatividade importa, é esse o tipo de protagonista que queremos?

Um ótimo exemplo de como representatividade importa, é esse o tipo de protagonista que queremos?

As opções eram Jennifer Niver, Ava Dellaira, Lucinda Riley,  Ami Ewig e Tarryn Fisher. O livro mais famoso de Fisher, o primeiro de sua triologia, se chama “A Oportunista“, na capa vemos uma mulher morena com batom vermelho e olhar sexy, e o resumo do livro fala que o ex-namorado da protagonista perde a memória e então ela e a namorada atual disputam para ocupar os espaços vazios na mente do garoto. Bem novela mexicana mesmo. “A Joia” de Ami Ewig é uma distopia onde uma garota é treinada para servir a realeza (seja lá o que esse ‘servir’ queira dizer) e a capa mostra uma menina deitada no chão com um vestido de princesa. Achei um retrocesso muito grande no caminho do empoderamento feminino e disse não pra esse também. E A Garota Italiana” de Riley, que me animou um pouquinho pelo título, é mais uma história de garota que muda sua vida inteira em função de perseguir um homem pela qual é apaixonada e que nem sabe de sua existência. Outro não.

Restaram Ava Dellaira e Jennifer Niven com temáticas parecidíssimas: ambas as protagonistas são adolescentes, perderam a irmã e estão em um ano decisivo do Ensino Médio (porque pra quem está no Ensino Médio todo ano é decisivo). A diferença é que Laurel, a protagonista de Dellaria, enfrenta a questão com a proposta da professora de inglês de escrever cartas à pessoas que se foram e Violet, de Niven, é motivada a seguir adiante porque quem se interessa em ajudá-la é o garoto esquisitão da escola.

O romance que eu mais gostei entre os destacados pela Bienal, bonita a capa né?

Acabei lendo os dois livros, até onde a amostra grátis do Google permitiu, e considerando que pelo ambiente, conflito e público leitor nós estamos falando de literatura de formação, acredito que “Cartas de amor aos mortos” de Ava Dellaira seja superior. 

Pra começar com a proposta das cartas que inicialmente dão a impressão de que a autora escreve mal, mas depois nos damos conta de que quem escreve é a protagonista e então o excesso de descrições e tentativas de metáfora são perdoados e nós nos afeiçoamos mais à personagem. Enquanto “Por lugares incríveis” vista em terceira pessoa intercalando o ponto de vista de Violet e Flinch, o que te prende mais na história e ameniza o fato de ser a história-de-uma-garota-salva-por-um-garoto porque nós também acompanhamos o interesse de Flinch por Violet.

Também somam pontos as referências que a Dellaria traz como Janis Joplin, Kurt Cobain e outros ícones que são explicitamente indicados como parte da formação de Laurel. Vemos nas cartas que ela se sente insegura e ainda carrega muita culpa pela morte da irmã, mas usa essas referências para evoluir e se aproximar dos novos amigos da escola e até usar algumas roupas do armário da irmã. De forma diferente vemos a protagonista de Por Lugares Incríveis que tem as garotas populares como referência e ao invés de encontrar a força em si mesma, ela só parece se sentir à vontade quando está próxima à Flinch.

Talvez eu compre “Cartas de amor aos mortos” quando ficar mais barato no Google Play, porque quero ver as próximas referências que surgirão nas cartas e vai ser legal ver a personagem crescendo, meio que a sensação que a gente tem no filme “Divertidamente” da Pixar, sabe? E “Por Lugares Incríveis” vai continuar na página 60, porque tudo me diz que é a história de uma garota que foi salva quando poderia ser a história de dois adolescentes que se apoiam em suas dificuldades.

Espero que esse post te leve a repensar nos romances de formação que você leu no Ensino Médio e olhe com mais atenção para o que os jovens estão lendo, principalmente as meninas que precisam passar por cinco princesas caídas para chegar à uma heroína que escreve cartas.

A gente se vê no próximo post,

leila2


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