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“Porque é assim”

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Abri as disciplinas da licenciatura muito a contra-gosto, porque tinha a sensação de que bastava saber o conteúdo do bacharelado para saber dar aulas, que lecionar era algo que se aprendia na prática. Descobri que a coisa não era bem assim… na verdade era bem pior. Além de confirmar minha expectativa de que a prática ensinava melhor do que qualquer teoria, eu sistematicamente fui desestimulada à essa prática.

Minhas aulas giravam em torno de um sistema curricular falho, em discussões improdutivas a cerca dos “Cadernos do Aluno” e projetos de Lei que não eram aplicados adequadamente e quase nenhum questionamento sobre este sistema, quase nenhuma conversa com professores da rede pública que saíssem de acusações vazias, quase nenhuma tentativa de aproximação dos alunos destas escolas. E sempre que eu e outros colegas pediam por novas propostas de ensino, por novas alternativas ao sistema, por propostas de estágio que nos ajudassem a encontrar saída para este sistema a resposta que se ouvia era “O sistema é assim.”

E não há nada pior para um professor (em constante formação) do que ouvir que as coisas não podem ser repensadas, que corrigir o que está errado exigiria mudar todo o sistema. Oras, o conhecimento não se constrói questionando o que parece estabelecido? Perseguindo ideiais de educação, cidadania e sociedade?

Todo o sistema está parado no tempo diante de um grande obstáculo em que se lê “As coisas são assim”. A formação dos professores não considera as mudanças sociais, a começar das referências bibliográficas que desconsideram a internet, somos professores em formação e não estudamos o comportamento dos nosso alunos nativos-digitais.

Dentre as escolas publicas disponíveis para estágios são poucas que oferecem uma nova proposta de ensino e estas recebem uma atenção especial com reunião periódica entre os estagiários e a coordenação. Estas escolas caminham bem, mas são as que seguem um modelo ‘tradicional’ de ensino que deveriam receber um acompanhamento dos estagiários e o desenvolvimento de um projeto educacional. As ferramentas para mudança estão em nossas mãos, mas são descartadas.

Os professores destas escolas nos recebem com frases de desestímulo, nos aconselhando a não seguir a carreira docente. Eles sabem que esta forma de estagiar é inútil e se prontificam a assinar horas de estágio que não cumprimos, eles nos perguntam o que fazer para se aproximar dos alunos e ao mesmo tempo acusam aqueles que ocupam a escola e exigem melhorias.

Os alunos não vêm sentindo em Fernando Pessoa, mas conseguem relacionar a política nacional com a obra de George R.R Martin. Eles não confiam em seus professores, mas falam abertamente com os estagiários e nós? Nós não podemos fazer nada, porque “o sistema é assim.”


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