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Um buraco no chão

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Não foi difícil escolher o local perfeito para começar a cavar, dali seria possível olhar o quarto através da janela, a estradinha que leva até a casa e seu pedaço favorito do quintal. Determinada, ela sentou sob os calcanhares e pôs-se ao trabalho transformando as mãos em pequenas pás. Felizmente estava nublado e não fazia muito calor, o que lhe possibilitou trabalhar na terra incessantemente até que as pás-mãozinhas começaram a doer.

Com um sorriso de satisfação ela mediu o tamanho do buraco e julgou que já estava suficientemente grande para cobrir metade de seu corpo. As lágrimas, que não pararam de cair, formaram uma pequena poça de lama. Sentada na beira do buraco e com os pés para dentro tocou a poça que havia se formado com a ponta dos dedos, depois passou os pés pela pasta marrom avermelhada e já se preparava para entrar quando um impulso a fez olhar para trás.

A menina correu até a casa e pulou a janela do quarto carimbando a cama com os pezinhos sujos, ela até pensou em pegar algumas bonecas, mas logo percebeu que elas não serviriam para nada, olhou de relance o álbum de fotos em cima da mesa e demorou-se um pouco mais a admirar a árvore no quintal, enfim caminhou em passos lentos na direção do buraco e carimbando o percurso de volta tentava entender o que se passava.

Durante o curto trajeto ela pensava naquilo que sua mãe e suas tias tentavam explicar, lembrou-se também de como era estranho que ninguém parecia tão eufórico como ela e principalmente, lembrou-se de como havia entendido tudo.

Aquela não tinha sido nem a primeira primavera e nem o primeiro inverno que ela havia visto, mas foi o primeiro inverno em que algo daquele tipo acontecia.

Sua avó não estava mais ali e isso precisava ser explicado.

Até então a aparência da avó não dizia nada, os cabelos brancos, as rugas, a voz ligeiramente rouca e a postura ligeiramente corcunda estavam sempre ali. Para Giovana, os cabelos da avó eram brancos assim como os seus são castanhos, entende?

A descoberta aconteceu no dia do velório, Giovana queria ver as fotos antigas da avó para apagar dos olhos aquela figura azulada e morta que lhe apontavam na sala. Ela começou a folhear o grosso álbum de trás para a frente, como costumavam fazer quando estavam juntas, a menina sorria de volta para as imagens conhecidas e se perguntava o que estaria fazendo naquelas em que estava ausente.

Quando terminou o primeiro álbum a menina foi procurar nas gavetas dos armários por outros mais antigos que ainda não havia visto e encontrou material o suficiente para passar o dia. Então ela começou a notar uma certa tendência de sua avó em tirar fotos debaixo da árvore do quintal, aquela mesma árvore que agora observava do buraco onde estava, também havia notado como o estado da árvore indicava em que época do ano a foto havia sido tirada.

As páginas avançavam e Giovana passava para álbuns cada vez mais amarelados quando ela se deu conta daquele estranho fenômeno: assim como a árvore, o cabelo e o rosto da avó se transformavam com o passar do tempo. O cabelo branco e a pele enrugada que lhes eram familiares não se pareciam com a pele lisa e os cabelos escuros das fotos amareladas que agora tinha em mãos.

Era como se a avó estivesse se descascando diante de seus olhos para ficar com a pele verde e jovem, assim como as árvores fazem quando voltam à vida depois do inverno. Giovana começou a esperar debaixo da árvore seca com a aparência morta, mas sempre com o álbum amarelado sob o colo procurando mais e mais evidências sobre sua descoberta, os meses passavam na medida da eternidade. Finalmente a primavera chegou e a árvore começou a reviver. Um arrepio de euforia e saudade formigou seu coração. Provavelmente sua avó estaria renascendo no jardim onde fora enterrada.

Giovanna era esperta e conhecia as plantas, ela não esperava uma aparição imediata. O amarelo nas fotos também deixava claro que o tempo das pessoas era mais longo do que o tempo das plantas e por isso, ela esperava pacientemente, mas não deixava de verificar o local onde estava enterrada a sua Vó-semente.

Talvez no verão… Como pude ser tão burra pra esperar na primavera?! Eu devia saber! O aniversário da Vovó é no verão!

O dia 5 de Fevereiro amanheceu cheio de expectativas para Giovana, pois seria o dia do renascimento de sua avó! Ela mal podia esperar para ver a reação da avó quando contasse como descobrira o ciclo da vida sozinha.

No caminho para o canteiro onde encontraria a Vó-nova-em-folha, Giovana reparou nas outras pessoas que estavam enterradas ali. Agora que já sabia de tudo, os jardins e estátuas que os parentes colocavam para enfeitar o canteiro de seus entes queridos a deixavam feliz, pois ela sabia que cada bloco de mármore era uma sementinha esperando sua estação. Ela começou a correr desenfreadamente quando pensou na avó. Como ela estaria? Seria como no álbum de fotos ou em forma de botão? Já poderiam levá-la para casa? Resolveu que não perguntaria nada aos adultos, ela surpreenderia à todos com sua história de como havia descoberto tudo sozinha. Definitivamente ela adivinhara a surpresa que a avó havia lhe preparado.

Não havia surpresa alguma. Sua avó não estava ali.

Restavam apenas o bloco de mármore e o vaso com as flores murchas que trouxera na semana passada e agora sua mãe trocava por outras mais novas e mais caras por conta da ocasião.

Giovana não se conteve e não conteve o choro de raiva quando perguntou pela avó e sua mãe respondera que ela havia sido retirada e cremada já há alguns meses e agora só restava aquela pedra como lembrança.

NÃO! Eles não podiam ter feito aquilo, eles deviam saber que a avó nasceria de novo naquele dia assim como as árvores faziam todos os anos. Ela já sabia de tudo, ela observou todas as provas: como a avó retomava a cor e a juventude com o passar dos álbuns, como ela parecia vistosa e saudável assim como a árvore no quintal ficava depois de parecer morta durante todo o inverno! Era melhor eles pararem com aquela brincadeira idiota agora mesmo! Ela já havia esperado pacientemente por quase um ano para ver aquilo e agora não podia esperar nem mais um segundo.

A menina saiu correndo pelo cemitério que ficava próximo à sua casa, os adultos não a impediram, pois ainda tentavam entender tudo aquilo que ela acabara de dizer.

Giovana chegou em casa decidida a vingar sua avó e não foi difícil escolher o lugar perfeito para começar a cavar.


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